Diálogo da negação literária

November 7, 2007

 

Diga o que quiser
condene o quanto puder
que dos mortos estou farta!

Ralhe e condene,
maldiga a mulher
que decerto mal sabe
dizer o Português de rebuscos,
quanto mais fazer prosa e verso em Inglês!
Pois largue,
largue de uma vez,
largue de dar atenção
a uma mulher tão infame!

Pegue Foucault, Flaubert, Kafka, Balzac,
Calvino, Maupassant, Henry James, Anne Rice,
pegue e leve-os embora contigo!
Quero a prosa e a poesia
de fundo de quintal,
quero a literatura dos vivos!

Pois deixe de dar atenção
a uma mulher tão infame,
de versos fracos,
isenta de norte,
que é incapaz de extravasar
sua agressividade através de palavras!
Com tantos bons escritores
- escritores jovens e vivos
de que vale essa mulher?

Pois estou farta dos mortos!
De tudo que eu quero,
antes quero
uma literatura que não
seja morta!

Deixe, deixe de lado,
deixe de dar atenção
a uma mulher tão infame,
que não sabe o
que é literatura,
quanto mais fazer versos…
essa mulher não é literata!
Como pode um ser humano
em sã consciência
ignorar os clássicos?

Não me fale,
não comente, não me lembre,
eu não quero os versos de Camões!
Pare de citar os mortos,
não me fale de Horácio,
nem de Homero, Catulo ou Safo!
Às favas com os clássicos!
De tudo que eu quero,
antes quero uma
literatura viva!

 

(CRUSP, Cidade Universitária - São Paulo, Novembro de 2007) 

 

O Concreto 2

October 24, 2007

 

O concreto viaduto

Que dirá o maldito

no meu luto

viaduto de ilusões que

me cercam e me cobrem e

engolem a nação-mundo

que dirá o bastardo do mundo

no esquecido do não dito

quem esquece e não

se apressa em fazer tudo

tudo aquilo que foi dito

de uma boca

dum maldito de não dito

que não lembra o que disse que

foi dito para os outros

que hoje olham o viaduto

sem carro ônibus bicicleta

os cobriu o viaduto

viaduto vida e casa

que de casa não tem nada

os que tem vida no

viaduto de noite cobertos

no viaduto debaixo

do viaduto

da violência fome morte miséria

que a ilusão dos

filhos-bastardos-do-mundo criaram

colocou pros filhos-da-miséria

a ilusão que não existe

violência-fome-morte-miséria

pra além do que conhecem

ou que só existe

pra além do que eles conhecem

miséria que só é minha

miséria que não é minha

miséria que não é de ninguém

mas que é de todo mundo

miséria pra todo (o) mundo.

(Trem Expresso Leste da CPTM, São Paulo, Outubro de 2006)

 

 

O Concreto 1

O concreto Augusto de Campos concreto

Luxo-lixo-luxo

se não tem lixo não tem

luxo não tem lixo

precisa de lixo pra ter luxo

pra ter lixo tem o luxo

pra mais luxo vai mais lixo vai

mais lixo pra mais luxo que

só cresce quando o lixo cresce

mais luxo mais lixo mais

luxo do lixo que

vem dos que não tem luxo

os que tem mandam mais lixo

pra miséria do lixo do

mundo gente-lixo-luxo-lixo

para o luxo-gente-lixo.

(Trem Expresso Leste da CPTM, São Paulo, Outubro de 2006)

Calor, calor, calor…

October 21, 2007

Por que quero me mudar pra um lugar mais frio?! 

Porque quero caminhar
sem tantas proteções contra o sol
sem medo de cansaço e desidratação
todo os dias.
Quero dormir bem todas as noites
e não precisar esperar uma grande frente fria
pra dormir de ventilador desligado ou trocar
o lençol pelo edredom ou a camisola
pelo pijama.
Quero poder ver neve quando me der vontade
ou ao menos conhecê-la.
Quero ter dor de cabeça ou mal estar apenas por motivos que não sejam o calor.
Quero ter por perto quem prefira a água fria de um rio cachoeira lago
em lugar de ir à praia e mergulhar na água morna e por vezes quente
do mar mesmo
quando o clima é quente
o sol é escaldante
o calor é delirante
e tudo fica estafante
E eu só posso tentar fugir
ficando num quarto com um ventilador no máximo me enchendo de água e suco
com uma bolsa de gelo na cabeça
enquanto os outros estão
na praia.
Queria ao menos poder fugir de passar calor sem precisar pra isso
de uma fortuna…

(Poá - SP, Agosto de 2006)

Singela homenagem à Poesia

Patrão Padrão

 

       I

 

Língua de padrão

poesia de padrão

pensamento de padrão

patronus – patrão – padrão

já cansei de poema patrão

construção de texto patrão no

papel virtual da tela

de um computador que passa

pr’o papel palpável que eu pego

do patrão da norma e regra

dita o texto a linguagem o

formato de amostra intelectual que

comanda uma academia.

Não sei se dá pra pôr

no poema o acadêmico

formado de padrão no

patrão de fonte monoespaçada

quebra de linha 1,5

margem 3x3x3x3

do texto morto de academia

que pronto vai pras gavetas

e não sai da boca de ninguém o texto

que não foi engavetado na cabeça

das pessoas que não conhecem

a gaveta

do arquivo.

 

       II

 

Colocar o perfeito patrão

na norma de um poema que

não é meio não é matéria

não é uma amostra grátis do

conhecimento da sociedade-humanidade

que de velha precisa

ter já uma herdeira

que não mate a mãe ela mesma

que ganhe o espaço da mãe

que permita chegar nova herdeira

de todo um mundo que não cabe

em poemas

que de tudo que existe

é amostra do pensamento.

 

       III

 

Tira o perfeito da gaveta

da ilusão da cabeça

que não sabe o que é perfeito

não sabe

ser perfeita

não conhece perfeição

que não existe.

De perfeito morreu

o socialismo de utopia

o milagre Americano

o metro de Homero

o Latim de Júlio César

de perfeito morreu Deus

e do que morre sobra

espectro do que poderia

ser talvez em ilusão

mas não é nem foi perfeito.

 

(Biblioteca Florestan Fernandes, FFLCH-USP, Fevereiro de 2007)

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